08/05/2014

A voz fotovoltaica

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Criada há menos de seis meses, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), aos poucos está se estruturando – fora dos holofotes da mídia. Com o corpo administrativo definido, a associação já conta com 28 associados, com a expectativa de atingir 50 em um curto período.
Revista GTD

“A associação foi fruto de um amplo debate entre empre- sas nacionais e internacionais atuantes no setor de energia solar fotovoltaica que identificaram não haver, até então, uma entidade representativa que defendesse de forma ins- titucional e exclusiva os interesses do setor produtivo de energia solar fotovoltaica no País”, afirmou o diretor exe- cutivo da nova associação, o doutor Rodrigo Lopes Sauaia.

Em uma longa entrevista à Revista GTD, Sauaia falou sobre os princípios que norteiam a Absolar, as primeiras ações em desenvolvimento, os obstáculos a serem supe- rados pela fonte no Brasil – especialmente no campo tributário e financeiro. Falou ainda sobre o que precisa melhorar na Resolução Normativa (REN) no 482/12 e analisou o resultado do leilão solar promovido pelo Estado de Pernambuco.

Para ele, é possível criar um mercado sem desenvolver a indústria, mas não é possível desenvolver uma indústria fotovoltaica brasileira sem que haja um mercado interno, com apoio governamental direto, políticas públicas, incentivos fis- cais e condições diferenciadas de financiamento para a fonte.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Quem é a ABSOLAR?

A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) é uma pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, que congrega empresas de toda a cadeia produtiva do setor fotovoltaico com operações no Brasil. A Absolar coordena, representa e defende os interesses de seus associados quanto ao desenvolvimento do setor e do mercado de energia solar fotovoltaica no Brasil, promovendo e divulgando a utilização da energia solar fotovoltaica no País.

Como surgiu a associação?

A ABSOLAR foi planejada ao longo do segundo semestre de 2013 e fundada no final de novembro do mesmo ano. A asso- ciação foi fruto de um amplo debate entre empresas nacionais e internacionais atuantes no setor de energia solar fotovoltaica que identificaram não haver, até então, uma entidade repre- sentativa que defendesse de forma institucional e exclusiva os interesses do setor produtivo de energia solar fotovoltaica no País. O processo de criação da Absolar foi liderado por um conjunto de oito empresas nacionais e internacionais e um especialista brasileiro do setor fotovoltaico que, juntos, fundaram e estruturaram a entidade.

Quais são os objetivos básicos da associação?

São três os principais eixos de atuação da ABSOLAR: Representar e promover o setor fotovoltaico brasileiro no País e no exterior, perante: o governo brasileiro (principalmente nas esferas federal e estadual), as demais entidades do setor elétrico brasileiro, a imprensa, ONGs, empresas e a sociedade civil.

Acompanhar o avanço do setor fotovoltaico no País: produzir informes e relatórios sobre a capacidade instalada e suas taxas de crescimento; divulgar aos membros da ABSOLAR as atuais oportunidades de negócio no setor (ex: editais, projetos, leilões, entre outros); divulgar para a sociedade brasileira projetos fotovoltaicos emblemáticos realizados no País.

Servir de ponto de encontro e debate para as empresas do setor, por meio de reuniões estratégicas com autoridades e especialistas do setor, atividades desenvolvidas em nossos grupos de trabalho e assembleias e plenárias periódicas para associados.

Como é formado o corpo administrativo da ABSOLAR

A associação possui uma estrutura muito similar à de outras entidades representativas do setor elétrico brasileiro. Temos um conselho de administração, responsável pelo planejamento estratégico da entidade, formado por representantes de empre- sas associadas, eleitas pelos demais membros da entidade para um exercício de dois anos de duração. Contamos também com uma diretoria executiva, de caráter permanente, responsável pela representação institucional da ABSOLAR, administração e direção de suas atividades, atração e classificação de novos associados e estruturação de parcerias estratégicas. A partir do crescimento da entidade, serão contratados profissionais de apoio para a execução de tarefas operacionais internas da associação, de modo a garantir a qualidade dos serviços prestados aos associados.

Quantos são e qual é o perfil dos associados?

A ABSOLAR começou suas atividades com nove fundadores. Em aproximadamente dois meses de abertura para novas adesões, a entidade mais do que triplicou para os atuais 28 associados. Temos a expectativa de atingir 50 associados no curto prazo e consolidar uma rede de empresas e profissio- nais com alto comprometimento com o desenvolvimento do setor fotovoltaico nacional. Por representar toda a cadeia pro- dutiva fotovoltaica com operações no País, o perfil de nossos associados é bastante variado, incluindo empresas nacionais e internacionais de diversos portes e diferentes segmentos. A associação já representa empresas de todos os elos produtivos do setor fotovoltaico, apesar de o Brasil infelizmente ainda não ter alguns destes elos em território nacional, especialmente na área industrial. Por outro lado, na área de projetos fotovoltaicos, temos associados trabalhando tanto com geração centralizada, ou seja, usinas solares fotovoltaicas de maior porte voltadas para os leilões estaduais e federal, quanto com geração distribuída, baseada principalmente na micro e minigeração estabelecida pela Resolução Normativa no 482/2012 da Aneel.

Quais são as primeiras ações em andamento?

A ABSOLAR já desenvolve uma série de ações estruturantes em prol do setor fotovoltaico. Realizamos mensalmente o “Encontro ABSOLAR”, com palestrantes estratégicos e ampla participação das empresas do setor fotovoltaico, promovendo e discutindo questões de alta relevância para o desenvolvimento do setor no País e criando um espaço para uma valiosa troca de experiências entre as empresas e os profissionais da área. Também estamos abrindo frentes de diálogo e cooperação com os principais tomadores de decisão relacionados ao setor elétrico brasileiro, incluindo governo federal, governos estaduais, Aneel, Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Banco Nacional de Desenvolvi- mento Econômico e Social (BNDES), entre outros.

Com quem já conversaram?

Por exemplo, já tivemos a oportunidade de apresentar a ABSOLAR ao diretor geral da Aneel, Romeu Donizete Rufino, à Superintendência de Regulação dos Serviços de Distribui- ção (SRD), e protocolamos junto à agência um conjunto de sugestões de aprimoramento da REN 482/2012, para auxiliar o desenvolvimento do mercado de micro e minigeração no País. Também enviamos contribuições para a recente consul- ta pública do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), sugerindo aprimoramentos e melhorias nos Requisitos de Avaliação da Conformidade para sistemas fotovoltaicos e pretendemos compor um grupo técnico para representar as empresas do setor fotovoltaico junto ao instituto de metrologia e à Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Além disso, temos participado ativamente de eventos nacionais e internacionais do setor fotovoltaico, representando nossos associados e compartilhando nossas propostas de apri- moramento do setor com tomadores de decisão, a sociedade brasileira e a comunidade fotovoltaica internacional.

Paralelamente, estamos estruturando nove grupos de traba- lho, que abordarão as áreas identificadas pela ABSOLAR como prioritárias para um desenvolvimento sustentável do setor fotovoltaico no País: comunicação e marketing, financiamento, formação e capacitação técnica, leilões e geração centralizada, micro e minigeração distribuída, normas e certificações, polí- tica e relações institucionais, tecnologia e política industrial e tributação. Parte importante do trabalho da Absolar será desenvolvida nestes grupos de trabalho (GTs). Os GTs serão responsáveis pela busca e análise de informações, elaboração de estudos e pareceres, discussão e execução de ações de fo- mento ao setor em suas áreas específicas de atuação.

Considerando que a associação ainda não completou nem sequer os seus seis primeiros meses de existência, estamos bastante otimistas com as ações desenvolvidas e confiantes de que daremos importantes contribuições ao desenvolvimento da fonte solar fotovoltaica ao longo deste e dos próximos anos. Para isso, contamos com o interesse, a participação e o apoio das empresas e profissionais do setor fotovoltaico.

Quais os principais obstáculos a serem superados para o desenvolvimento da energia solar no Brasil?

Resumidamente, os obstáculos mais relevantes são: necessidade de metas quantitativas claras dos governos federal e estaduais para a inserção da fonte solar fotovoltaica na matriz elétrica brasileira; necessidade de uma política industrial direcionada ao setor e que viabilize o desenvolvimento da cadeia produtiva fotovoltaica no País; necessidade de novas opções de financiamento junto ao BNDES que permitam o desenvolvimento de projetos no curto prazo, já que a exigên- cia demasiadamente elevada de conteúdo nacional para uma indústria que ainda não está consolidada impede a obtenção de financiamento junto ao órgão; e necessidade de redução da carga tributária excessiva incidente sobre matérias-primas, componentes, equipamentos e serviços do setor, que afeta negativamente o preço final da energia solar, prejudicando a competitividade da fonte e dificultando o seu avanço no País.

Quais são os principais obstáculos a serem superados para o desenvolvimento da micro e minigeração distribuída? São dois os maiores obstáculos atualmente identificados: tributação e financiamento. O Convênio ICMS No 6, de 5 de abril de 2013, do Confaz, fez com que não tivéssemos no País um verdadeiro sistema de “net-metering”, conforme planejado pela REN 482/2012 da Aneel para incentivar o desenvolvi- mento da micro e minigeração distribuída a partir de fontes renováveis. A Absolar compartilha da visão da Aneel de que seria essencial rever este convênio para que a tributação in- cidente sobre a energia elétrica proveniente de sistemas de micro e minigeração seja calculada apenas sobre a energia líquida consumida, não sobre a energia bruta, conforme pre- via a regulamentação. Tal ajuste resultará em um importante fomento ao desenvolvimento das fontes de energias renová- veis em pequena escala, com destaque para a fonte solar, que representa mais de 80% dos sistemas de micro e minigeração, segundo dados da agência reguladora. Adicionalmente, a tributação pela energia líquida resultará em um ganho efeti- vo de arrecadação para os governos federal e estaduais. Este benefício será proveniente dos ganhos indiretos advindos do fomento ao mercado de micro e minigeração, bem como da geração de novos empregos no País. Uma revisão do referido convênio seria, portanto, uma vitória importante para os se- tores de energias renováveis, para a administração pública e, principalmente, para a sociedade brasileira, que será a maior beneficiada pela micro e minigeração distribuída.

E o financiamento?

Com relação ao financiamento, as opções atualmente exis- tentes tanto para pessoa física quanto pessoa jurídica não são adequadas para projetos fotovoltaicos. Por um lado, as opções oferecidas por bancos privados são demasiadamente onerosas (juros mensais muito altos) e possuem prazos muito curtos (até cinco anos) para o ciclo de vida de um sistema fotovol- taico, com vida útil superior a 25 anos e payback (período de recuperação do investimento inicial) maior que cinco anos. Por outro lado, as opções oferecidas pelo BNDES são prioritariamente voltadas a projetos de maior porte, na escala de milhões de reais, ou seja, o banco tem poucas alternativas para micro e minigeração e as alternativas existentes ainda esbarram no problema de exigência de conteúdo nacional.

Como é formada a cadeia da indústria solar?

Resumidamente, para as tecnologias de silício cristalino, que representam aproximadamente 90% do mercado mundial, temos: extração de quartzo (mineração), fabricação de silício grau metalúrgico, fabricação de silício grau solar (polisilício ou silício policristalino), crescimento de cristais de silício (blocos multicristalinos ou lingotes monocristalinos), corte dos cristais em lâminas de silício (wafers), fabricação de células solares, fa- bricação de módulos fotovoltaicos, e fabricação de equipamentos e componentes complementares (inversores, cabos, conectores, estruturas de sustentação etc.). Fora do âmbito industrial, temos ainda quatro áreas de serviços, essenciais ao setor fotovoltaico, responsáveis por uma parcela significativa da geração de empre- gos nacionais do setor: representação comercial e distribuição de componentes e equipamentos; desenvolvimento e venda de projetos; design, engenharia e construção de sistemas fotovol- taicos; e, finalmente, operação e manutenção destes sistemas.

O que já existe no Brasil?

Atualmente, o Brasil ainda não está presente em escala in- dustrial significativa em elos importantes da cadeia produtiva do setor fotovoltaico, a citar: fabricação de silício grau solar, crescimento de cristais, corte dos cristais em lâminas de si- lício, fabricação de células solares e fabricação de módulos fotovoltaicos, incluindo a fabricação de vidro temperado com baixo teor de ferro para aplicações fotovoltaicas. Exis- tem iniciativas importantes em algumas destas áreas sendo desenvolvidas por empresas brasileiras e joint-ventures com grupos internacionais, inclusive fábricas para a montagem de módulos fotovoltaicos. Porém, tais iniciativas enfrentam obstáculos sérios de falta de apoio de políticas industriais, o que dificulta a sua competitividade frente a equipamentos vindos de outros países, inviabilizando os projetos. Quanto à fabricação de equipamentos e componentes complementa- res, a indústria brasileira de componentes elétricos possui competência para produzir estes dispositivos, porém aguarda uma demanda anual mínima que justifique os investimentos necessários nestas linhas de produção ou fábricas.

O que é preciso para desenvolver a cadeia industrial da energia solar no Brasil?

Em linhas gerais, as condições básicas necessárias para promover o desenvolvimento de uma cadeia produtiva na- cional de energia solar fotovoltaica são o estabelecimento de demanda interna por produtos do setor fotovoltaico, através da definição, pelos governos federal e estaduais, de metas quantitativas claras de capacidade instalada de sistemas fotovoltaicos no país, bem como pelo incentivo aos sistemas de micro e minigeração. Com metas na ordem de centenas a milhares de MW por ano, por um horizonte de cinco a dez anos, haverá grande interesse de desenvolvimento industrial no Brasil. Processo similar foi observado para o setor eólico nacional, que conta com novas adições de capacidade insta- lada de pelo menos 1000 MW a 2000 MW anuais. Estes valores justificam os investimentos em uma indústria nacional para a fonte eólica. O caminho para desenvolver uma cadeia produtiva de energia solar fotovoltaica segue a mesma lógica.

Também é necessário estabelecer um conjunto de políticas industriais sinérgicas e bem formuladas, que crie condições de competitividade aos componentes e equipamentos fotovol- taicos produzidos no País. Isso inclui uma redução da carga tributária incidente sobre as matérias-primas, componentes e equipamentos fotovoltaicos.

É possível desenvolver uma indústria fotovoltaica brasi- leira sem mercado interno?

Apesar de ser possível desenvolver o mercado sem desen- volver a indústria, não é possível desenvolver uma indústria fotovoltaica brasileira sem que haja tanto um mercado interno quanto um apoio governamental direto, através de políticas públicas, incentivos fiscais e condições diferencia- das de financiamento. Este caminho foi seguido por países como a Alemanha, os EUA, o Japão, a China e a Índia, que apoiaram fortemente seus setores fotovoltaicos, fomentando, paralelamente, o desenvolvimento de seus mercados internos. Para que a cadeia produtiva nacional seja competitiva com a de países que possuem décadas de experiência à frente do Brasil, é necessária uma política de governo específica para apoiar o setor. Caso contrário, o País não teria condições de competir, interna ou externamente, com empresas fortemente incentivadas e, algumas vezes, até mesmo subsidiadas por governos estrangeiros. Vale lembrar a trajetória do setor fotovoltaico chinês, apoiado de forma intensa e planejada pelo governo da China, com desonerações tributárias, financiamento a juros subsidiados e prazos estendidos, além de forte fomento ao desenvolvimento de um mercado nacional. O Brasil pode aprender muito com este e outros casos de sucesso, adaptando-os ao cenário nacional, maximizando nossas potencialidades e construindo vantagens competitivas.

Como o senhor avalia o resultado do leilão promovido pelo Estado de Pernambuco? O modelo pode ser melhorado? Além do governo federal, a participação dos governos estaduais é fundamental para o desenvolvimento da fonte solar fotovoltaica no País. O leilão estadual promovido por Pernambuco foi seguramente um acontecimento pioneiro e muito importante para a fonte solar fotovoltaica no Brasil. A ABSOLAR parabeniza o Estado de Pernambuco pela iniciativa e incentiva outros Estados a realizarem os seus próprios leilões específicos de energia solar.
Quanto aos resultados do leilão, ainda é cedo para avaliar o sucesso do certame, já que os projetos contratados estão atualmente sendo desenvolvidos, ou seja, não começaram a gerar e vender energia elétrica. No entanto, é possível apontar aspectos que podem ser melhorados em futuros leilões estaduais de energia solar, seja em Pernambuco ou outros Estados brasileiros. Um ponto importante que dificultou a participação de empresas no certame foi o prazo bastante curto para o cadastramento de projetos junto à secretaria responsável. O leilão inicialmente estava previsto para fevereiro de 2014, porém foi antecipado para dezembro de 2013 e esta alteração acabou dificultando a participação de diversas empresas interessadas. Outro ponto crítico que causou a desistência de alguns desenvolvedores foi uma falta de garantia contratual de compradores para a energia a ser comercializada previamente ao certame. Isso trouxe riscos adicionais aos interessados, pois não havia a certeza de quem seriam os compradores da energia a ser negociada. Sendo este o primeiro leilão específico de energia solar do País, estas e outras dificuldades fazem parte da curva de aprendizado do setor. É importante avaliar criticamente o que deu certo e o que deu errado no leilão de Pernambuco, para que os acertos possam ser replicados e os erros eliminados nos próximos leilões solares.

O Brasil tem mão de obra capacitada para atuar nesse mercado?

Para uma parcela dos empregos que serão gerados no setor fotovoltaico, a resposta é claramente sim, por se tratarem de perfis profissionais já presentes em diversos outros setores do País. Com relação aos empregos de maior grau técnico e tecnológico, especialmente projetistas e instaladores de sistemas fotovoltaicos, será necessário um processo gradual de formação e capacitação técnica de mão de obra. Esta formação deve fornecer aos profissionais os conhecimentos, competências e habilidades necessárias para o exercício, com qualidade e segurança, de suas atividades de rotina.

Dada a importância deste tema na qualidade das instalações e, consequentemente, na reputação do setor e da tecnologia fotovoltaica perante a sociedade brasileira, a ASOLAR enxerga a área de capacitação e formação técnica como um dos pilares estruturais do crescimento de longo prazo da energia solar fotovoltaica no Brasil. Por isso, temos um grupo de trabalho, já em atividade, dedicado exclusivamente ao tema. Atualmente, este grupo está realizando um levantamento sobre os progra- mas de certificação para profissionais e empresas utilizados em outros países. Com base neste material, será montado um conjunto de ementas mínimas para cursos voltados à capacitação de profissionais nas diferentes áreas técnicas do setor fotovoltaico. Paralelamente, buscaremos promover um amplo debate com instituições formadoras, especialmente as de nível técnico, para unir esforços em torno da capacitação de pro- fissionais para o setor fotovoltaico. Algumas instituições já deram os primeiros passos neste sentido por iniciativa própria ou com o apoio de parceiros. É importante que busquemos uma padronização mais ampla dos conteúdos, preferencial- mente em nível nacional, de modo a garantir o cumprimento de requisitos mínimos e a qualidade da formação oferecida.

Falta incentivo fiscal para a fonte?

Sim e precisamos entender esta questão com clareza e consciência para solucionar o problema. A fonte solar está em desvantagem na área de tributos incidentes sobre bens (matérias primas, componentes e equipamentos), serviços e até mesmo nos tributos incidentes sobre a energia elétrica injetada na rede, para o caso da micro e minigeração distribuída. O tema é bastante árido, por isso vou dar apenas um exemplo bem ilustrativo do trabalho que ainda precisa ser desenvolvido para a fonte.

Trata-se do Convênio ICMS 101/97, atualmente prorrogado até 31/12/2015. A partir de 2011, o setor eólico brasileiro começou um processo muito importante para a competitividade da fonte eólica de inclusão de itens que compõem os gerado- res eólicos na lista de isenções oferecidas por este convênio. No começo deste ano, a indústria eólica conseguiu garantir uma renovação do referido convênio até o final de 2021. Por outro lado, para a energia solar fotovoltaica, além do módulo fotovoltaico, o único componente atualmente isento de ICMS são células solares não montadas. Isso significa que todos os demais componentes necessários para se montar um módulo fotovoltaico, por exemplo, não têm este benefício. O mesmo ocorre para componentes e equipamentos complementares do setor fotovoltaico, que permanecem pesadamente onerados. A consequência disso é perversa: segundo estudo publicado pela GIZ, os impostos são responsáveis por um custo adicional de aproximadamente 30% para módulos fotovoltaicos e até 80% para inversores e demais componentes complementares.

Os atuais vilões tributários do setor fotovoltaico são simples de identificar: II, IPI, ICMS, PIS, COFINS e ISS. A Absolar tem um grupo de trabalho específico para trabalhar a questão tributária e intercederemos a favor das melhorias de condições tributárias para a fonte junto aos órgãos responsáveis, com a perspectiva de cooperação e colaboração. Com uma boa enge- nharia tributária aplicada ao setor fotovoltaico, será possível reduzir o preço final da energia solar fotovoltaica em pelo menos 20%, tornando-a significativamente mais competitiva.

Qual é o potencial de geração do Brasil?

Em uma palavra: imenso. Colocando em termos comparati- vos, para dar uma dimensão da magnitude de nosso potencial: segundo relatório de 2007 do Ministério de Minas e Energia e do Cepel, o potencial hidrelétrico brasileiro era estimado em aproximadamente 260 GW e segundo o atlas eólico brasileiro de 2001, o potencial eólico brasileiro era estimado em apro- ximadamente 144 GW (números mais atualizados apontam para aproximadamente 200 GW). Com base em uma meto- dologia similar à aplicada pelo National Renewable Energy Laboratories (NREL) para determinar o potencial dos EUA em 2012, podemos estimar, de forma bastante conservadora, que o potencial fotovoltaico brasileiro está na faixa de dezenas de milhares de GW, ou seja, centenas de vezes a somatória de todo o potencial hidrelétrico e eólico brasileiro. É, sem dúvida, o maior potencial de energia renovável à disposição do Brasil. Portanto, precisamos educar a sociedade brasileira e nossos tomadores de decisão quanto à oportunidade gigantesca que a fonte solar representa ao nosso País para um desenvolvimento sustentável e de longo prazo.

A onde estão as melhores regiões para a produção da energia solar?

Uma das maiores vantagens da energia solar em comparação com outras fontes de energia está no fato de o potencial solar brasileiro ser muito bem distribuído pelo território nacional.

Para uma análise mais detalhada, vou dividir a resposta em duas partes, de acordo com seu o tipo de aplicação: geração distribuída (micro e minigeração solar fotovoltaica) e geração centralizada (usinas solares fotovoltaicas).

Para as aplicações de geração distribuída, o potencial solar viável está relacionado não apenas com os níveis de irradiação solar de cada região, mas principalmente com a tarifa de eletricidade paga pelos consumidores brasileiros. Ou seja, quanto maior a tarifa final de um consumidor (em R$/kWh), mais atrativo será o investimento em energia solar fotovoltaica como uma forma de gerar sua própria energia e reduzir seus gastos com eletricidade. Portanto, a análise precisa ser feita separadamente para cada distribuidora e não pensando em regiões geográficas do País. Mesmo assim, como uma regra geral, alguns bons exemplos de regiões favoráveis para o uso de micro e minigeração solar fotovoltaica incluem: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Tocantins, Maranhão, Goiás, Piauí, entre outros Estados.

Para as aplicações de geração centralizada, além da grande importância dos índices de irradiação solar, o potencial solar viável está relacionado a diversos fatores relativos ao desen- volvimento dos projetos, como a proximidade ao ponto de conexão ao Sistema Interligado Nacional, disponibilidade de terras, facilidade de acesso e custos logísticos durante o trans- porte de materiais e a construção dos projetos, entre outros. Atualmente, os desenvolvedores de projeto estão concentrando seus esforços principalmente em regiões do nordeste e da parte norte do sudeste brasileiro, porém a maioria destes projetos ainda é prospectiva, aguardando um leilão nacional específico de energia solar para provar sua competitividade e viabilidade.

Qual é o panorama atual e futuro do setor fotovoltaico no mundo e no Brasil?

No mundo, com base nos dados do mercado até 2013, a energia solar fotovoltaica já acumulava mais de 130 GW de capacidade nominal instalada, sendo que apenas no ano de 2013 foram instalados por volta de 35 GW de novos sistemas. Para 2014, as previsões estão na faixa dos 40 GW a 50 GW anuais, demonstrando a enorme velocidade com que o setor fotovoltaico está avançando.

No Brasil, a realidade ainda é outra: temos entre 30 MW e 40 MW instalados no País, sendo aproximadamente 75% deste total composto por sistemas autônimos, que não estão conectados ao SIN. Porém, este panorama está em plena transformação: com a vinda de leilões específicos para energia solar, espera-se um crescimento bastante expressivo do setor fotovoltaico brasileiro já a partir dos próximos anos. Se forem superadas as atuais barreiras na micro e minigeração, a expectativa é de um crescimento também expressivo de sistemas de pequeno e médio porte.
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