28/09/2016

Energia nova para iluminar o futuro

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Carta Capital

Novas tendências vão moldar o futuro do setor elétrico nacional.

A energia solar brilhará na matriz elétrica nacional nos próximos dez anos e deverá representar 3% da eletricidade gerada em 2024, ante uma participação incipiente hoje, seja com investimentos em parques solares, seja com o avanço da microgeração distribuída, em que consumidores residenciais ou comerciais instalam placas fotovoltaicas para gerar sua própria energia.

O aumento da energia solar combina-se à maior presença das usinas eólicas, que deverão responder por mais de 10% da geração elétrica daqui a dez anos.

O uso de fontes intermitentes abrirá espaço para novas tecnologias, como o armazenamento, e acirrará o debate sobre as fontes mais limpas capazes de atuar na base do sistema.

"O potencial no Brasil da energia solar pode chegar 200 mil megawatts", disse o presidente da Cemig, Mauro Borges, um dos participantes do "Diálogos Capitais: Energia Limpa", realizado por CartaCapital, em São Paulo, na sexta-feira 16.

Para Alexandre Lisboa, presidente da Efficientia, boa parte dos estados tem boa insolação e irradiação solar, enquanto os custos da fonte no mundo estão em franca queda. "A solar é a bola da vez", disse Lisboa.

Na energia solar há um campo ainda maior a ser explorado, explicou Luis Fernandez-Pita, vice-presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR): "Em geração distribuída, temos 4,5 mil pedidos, ante 60 milhões de pontos de energia no Brasil todo, e as estimativas são de que teremos 8 mil megawatts de capacidade em 2024. Desse total, cerca de 3 mil estão saindo papel".

Para ele, a fonte pode contribuir para a retomada econômica.

Cada megawatt instalado pode gerar 30 empregos diretos e 90 indiretos.

Fabricantes começam ase instalar para produzir módulos e placas fotovoltaicas, enquanto o BNDES já tem linhas para incentivar a produção local, o que pode repetir o sucesso da política industrial aplicada no segmento eólico.

Mas há entraves, como V o financiamento para a aquisição de equipamentos.

Em alguns estados, a compra de painéis fotovoltaicos custa cerca de 30 mil reais, o que poderia levar até dez anos para ser abatido da conta de energia, já que uma resolução do governo permite que o minigerador abata sua produção na tarifa.

Pita queixa-se ainda da falta de isono-mia tributária entre os componentes dos sistemas solares, o que torna o produto nacional caro:

"A energia solar é fundamental nos projetos de geração distribuída, pois permite democratizar a energia". O País já tem cerca de 5 mil residências e pequenos comércios gerando sua própria energia, seja por placas fotovoltaicas, seja por miniturbinas eólicas.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê que até 2024 perto de 1,2 milhão de unidades consumidoras produzam sua própria energia em um total de 4,5 giga-2 watts de potência instalada. Na Alemanha, a geração chega a 17,5 gigawatts.

A microgeração distribuída solar poderá trazer melhorias sociais.

A Cemig, controladora da distribuidora fluminense Light, já estuda soluções para o Rio de Janeiro, onde a concessionária perde 40% da energia distribuída, 2 principalmente por ligações clandestinas.

Em Io de março, entrou em vigor uma nova regulação da Aneel que ampliou os incentivos à produção distribuída, elevando a potência para as unidades geradoras de até 75 kW na microgeração; e minigeração, até 3 MW, no caso de hidrelétricas, e até 5 M W para as demais fontes renováveis.

A validade dos créditos para compensação à distribuidora sofreu alterações, estendida de 36 para 60 meses. "Isso permite o compartilhamento da geração distribuída, já que pode ser instalada uma grande placa fotovoltaica em um morro do Rio de Janeiro nas áreas de maior perda comercial da distribuidora.

Em vez de um problema potencial, transformamos isso em ganha-ganha, desde que o investimento da concessionária possa ser incorporado à tarifa", destacou Mauro Borges, da Cemig.

As usinas eólicas também vão reforçar sua presença.

De uma participação inferior a 0,5% em 2001, quando o País enfrentou seu último racionamento, a fonte atualmente responde por pouco mais de 6,5% da geração de energia.

O potencial ainda é considerável, podendo chegar a 300 mil MW de potência instalada. " Em 2020, devemos dobrar a capacidade e podemos adicionar outros 10 mil mega-watts à matriz", observou Sandro Yama-moto, diretor técnico da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

A maior presença de fontes intermitentes combina-se à perda de armazenamento das hidrelétricas, que respondem por mais de 60% da energia gerada.

Há duas décadas, a maioria dessas novas usinas é feita sem grandes reservatórios em u m momento em que o grande potencial hidrelétrico está na Região Amazônica.

Com mais usinas a fio dágua, o sistema está mais dependente das chuvas.

A capacidade de armazenamento das hidrelétricas caiu de 6,3 meses para 4,7 meses em dez anos e poderá cair mais até o fim da década.

Entre 2013 e 2018, quando as usinas do Rio Madeira e Belo Monte entram em operação, está prevista a adição de 20 mil M Wde capacidade hídrica no sistema. No entanto, apenas 200 MW desse volume têm reservatórios.

Para Márcio Drummond, gerente da área de comercialização da Eletrobras, o avanço das fontes solar e eólica exige o uso de energia de base para elevar a segurança do sistema em um momento em que a capacidade de armazenamento das hidrelétricas está em queda. "O avanço dessas fontes renováveis pode ficar limitado a 30% da matriz, por causa da intermitência e de problemas de estabilidade à rede. Não escaparemos no médio prazo de escolher se vamos remover barreiras à construção de hidrelétricas com reservatórios ou então se deveremos construir usinas nucleares", destacou.

Nos últimos anos, por conta da dificuldade de avançar com os empreendimentos hidrelétricos, o País deu prioridade à construção de usinas térmicas.

Segundo pesquisa do Observatório do Clima, entre 1970 e 2013, o segmento quadruplicou a emissão de poluentes globais, chegando a 2013 com 29% das emissões brasileiras.

Se considerados apenas os últimos cinco anos, as emissões da área energética aumentaram 34%. "Não existe energia 100% limpa e há uma piada que ironiza se morreremos asfixiados ou afogados", disse Drummond. Na análise das fontes, o consumo de água também deve ser observado, ainda mais após a crise hídrica que ameaçou o abastecimento nas regiões metropolitanas da Região Sudeste, no ano passado.

O gerente da Eletrobras aponta que, em relação ao consumo de água, as fontes eólica e solar são as que menos utilizam o recurso natural. "Nos Estados Unidos, cerca de 40% da água doce é usada para refrigeração de usinas térmicas. E isso que queremos? O futuro da nossa matriz dependerá de responder perguntas cada vez mais complexas", frisou.

Para o gerente de bioeletricidade da Única, entidade que reúne a indústria da cana-de-açúcar, Zilmar de Souza, a biomassa poderá reduzir a intermitência na rede, com o avanço da eólica e da solar. "Nós não somos intermitentes e a geração coincide com a safra entre abril e novembro, período em que as hidrelétricas perdem água por conta da estiagem", destacou.

Por conta do acordo obtido na reunião sobre o clima da Organização das Nações Unidas, a CoP-21, realizada em Paris, em dezembro de 2015, o Brasil comprometeu-se a elevar de 10% para 23% o uso de renováveis em sua matriz, com destaque para a eólica, a solar e a biomassa. "Mas é preciso dar um estímulo à cadeia, porque vivemos no stop ando, o que foi complicado pela política de não reajuste da gasolina, que reduziu a competitividade do etanol", afirmou.

Em 2010, pouco mais de 1,7 mil MW de biomassa foi adicionado à rede, cerca de um terço da nova geração acrescentado aquele ano à matriz.

Nesse período, o volume caiu pela metade. Nos próximos deverá cair para 100 MW por ano. "Em 2020, a biomassa vai representar apenas 3% da nova geração adicionada e o potencial é enorme: duas Itaipus, com 24 mil M W, estão adormecidas."

Novas tecnologias vão ganhar espaço, como o armazenamento de energia, cuja capacidade instalada no mundo já chega a quase 200 GW. "Com a maior intermitência da matriz, o armazenamento surge como uma opção de segurança", analisou Alexandre Bueno, diretor de desenvolvimento de tecnologia e mercado da Associação Brasileira de Armazenamento e Qualidade de Energia (Abaque).

A Usina Hidrelétrica de Bariri, da AES Tietê, é o primeiro complexo nacional a ser integrado a um sistema de baterias para armazenar sua geração.

Este projeto piloto pode armazenar até 0,5 MW em baterias de íons de lítio.

Na verdade, o setor elétrico ensaia uma revolução.

A chegada gradual das redes inteligentes de energia transformará a relação entre concessionárias e clientes, deverá elevar a eficiência no uso da eletricidade e abrirá um novo universo de inovações com a conexão de residências e indústrias à internet das coisas, que, segundo um estudo da Cisco, poderá criar um valor econômico de 14,4 trilhões de dólares em uma década no mundo.

Desse total, cerca de 50% está nas conexões máquina a máquina.

A adoção das redes inteligentes significará também uma revolução no papel do consumidor, o qual, além de optar por tarifas diferenciadas, poderá gerar energia em sua residência e obter créditos no sistema.

As redes permitirão que as máquinas e equipamentos "conversem" entre si, em busca de eficiência.

Também possibilitará ao usuário avaliar o consumo de cada eletrodoméstico em tempo real.

Haverá tarifas diferenciadas por horário e o cidadão terá a possibilidade de gerenciar o tempo de funcionamento dos apa rei hos elétricos e aproveitar a energia mais barata ofertada na madrugada.

Isso abre espaço para a criação de aplicativos para que consumidores possam gerenciar melhor suas contas de luz ou melhorar o desempenho de seus equipamentos.

"Abre-se também um horizonte de serviços que ainda está para ser criado e tem conexão com a internet das coisas", afirmou a vice-presidente de desenvolvimento estratégico da AES Eletropaulo e presidente da AESErgos, Teresa Vernaglia.

Para atuar neste novo universo, a empresa investe 70 milhões de reais em um projeto de redes inteligentes de energia em Barueri (SP), que prevê a instalação de cerca de 60 mil medidores inteligentes.

O município exemplifica o espaço de concessão da empresa, ao unir áreas residenciais, comerciais e industriais, além de um número considerável de pessoas ligadas ao sistema elétrico.

Bem-sucedido e com sinal econômico dado pelo governo federal de como serão compartilhados os custos da adoção gradual dessas redes, cuja tecnologia é mais cara, a experiência deverá ganhar capilaridade na rede de distribuição da concessionária, que atende pouco mais de 6 milhões de clientes em São Paulo.

A AES lançou recentemente uma nova plataforma de inovação, que pretende investir recursos em empresas nascentes que tenham soluções em cinco áreas: internet das coisas, armazenamento de energia, geração distribuída, eficiência energética e veículo elétrico.

Para estimular o projeto, a AES usará a verba (cerca de 100 milhões de reais) destinada à Pesquisa e Inovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que estipula que 0,5% da receita operacional líquida das concessionárias seja direcionada à inovação.

"Pretendemos acelerar empresas nascentes nessas cinco áreas em um momento em que o setor elétrico vive uma revolução e se aproxima da internet das coisas", adiantou.

A gestão da conta de luz passa a ser um trunfo para as concessionárias neste novo ambiente que surge, cenário também estimulado pelo acordo obtido na reunião sobre o clima da Organização das Nações Unidas, a CoP-21, realizada em Paris, em dezembro de 2015, quando o Brasil se comprometeu a elevar em 10% sua eficiência energética. "Não se pode pensar apenas no aumento da oferta, mas é preciso também estimular a eficiência energética, que terá um avanço com a alta das tarifas e o acordo de Paris", analisou Alexandre Lisboa, presidente da Efficientia, controlada da Cemig.

Para ele, as concessionárias estão estudando como ingressar no mundo novo que se abre com o avanço das energias renováveis intermitentes, o aumento da microgeração distribuída e as novas tecnologias de armazenamento energético. "Todos estão analisando como se pode ingressar nesses mercados", disse Lisboa.
 
 
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