04/07/2016

Evolução gradual

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O compromisso brasileiro firmado na reunião sobre clima de Paris (CoP-21), em dezembro, de elevar de 10% para 23% o uso de energias renováveis na geração de energia elétrica até 2030, enfrenta obstáculos que precisam ser superados. A sobrecontratação nas distribuidoras, que poderá reduzir a realização de leilões de contratação de energia, se soma a dois outros desafios. A perda da relevância relativa das hidrelétricas torna a matriz mais complexa, o que exige uma avaliação ampla dos impactos socioambientais e dos custos atrelados à instalação de cada uma das fontes.

"Ingressamos em um momento em que está cada vez mais complexo avaliar a matriz, que ao mesmo se torna mais volátil, com maior dependência das chuvas e maior uso de fontes intermitentes. Portanto, precisaremos analisar o fator de capacidade e o custo socioambiental e de transmissão de cada uma delas para ver sua viabilidade e teremos de dosar o avanço de cada uma delas", afirma José Goldemberg, atual presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomércioSP.

Ele ressalta que o cenário para as fontes renováveis é promissor no mundo, uma vez que fabricantes de equipamentos e petroleiras já trabalham com a eventualidade de surgimento, nos próximos anos, de um preço sobre a emissão de carbono. "Algumas empresas trabalham com US$ 50 por tonelada de gás carbônico, o que faria o preço do petróleo ficar acima de US$ 80, e que impulsionaria ainda mais as renováveis."

O maior obstáculo de curto prazo é a sobrecontratação de energia existente hoje nas distribuidoras, que pode ter impacto sobre um dos setores mais promissores: as usinas movidas à força dos ventos. Desde 2009, foram contratadas pouco mais de 600 usinas eólicas, com 15,2 mil megawatts de capacidade, cerca de dois mil megawatts de potência por ano, mas o excesso de energia existente hoje pode reduzir esse ímpeto. "Entre 2013 e 2015, 40% da energia comercializada nos leilões foi de eólicas, mas o desafio é manter a contratação de dois mil megawatts por ano, para preservar a cadeia produtiva, que se tornou importante na indústria de energia mundial", afirma Diogo Berger, superintendente de project finance do Santander.

Outros segmentos também estão preocupados, com sinalizações recentes do governo de que os leilões estão sendo reavaliados diante da atual conjuntura, com consumo em queda e excesso de oferta. "Esse momento traz incertezas sobre a contratação de pequenas centrais hidrelétricas, mas esperamos que as soluções sejam estruturais, porque do inventário à construção do projeto, uma PCH leva dez anos de desenvolvimento", afirma Márcio Severi, presidente da Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel).

Para a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, a sobrecontratação precisa ser analisada levando-se em conta outro ponto: a garantia física do sistema. Ou seja, sua real capacidade de geração de energia está abaixo do que consta em contratos. Seja por problemas em turbinas, por assoreamento em reservatórios, problemas em interligações físicas, a garantia física do sistema estaria 6 mil MW médios aquém do que as usinas poderiam gerar de fato. "Os leilões de reserva são essenciais pois uma retomada mais rápida da economia eliminaria rapidamente essa sobreoferta conjuntural. E, apesar da recessão, estávamos operando com bandeira vermelha até fevereiro, usando as térmicas para reduzir a pressão sobre o sistema", aponta a executiva.

Apesar dos percalços no curto prazo, o avanço das renováveis coincide com a chegada das redes inteligentes de energia (smart grid, em inglês) e da microgeração distribuída, o que pode revolucionar a relação entre distribuidoras e consumidores e ampliar o aumento da geração solar. Em 1º de março, entrou em vigor uma nova regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ampliando os incentivos à geração distribuída, elevando a potência para as unidades geradoras de até 75 kW na microgeração; e minigeração, até 3 MW, no caso de hidrelétricas, e até 5 MW para as demais fontes renováveis.

A validade dos créditos para compensação junto à distribuidora também sofreu alterações, estendida de 36 para 60 meses.

Supermercados, shoppings, postos de gasolina, operadoras de telecomunicações são algumas das empresas que já avaliam investimentos. "Essas mudanças aumentaram o interesse", admite Rodrigo Lopes Sauaia, diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR).

A disparada das tarifas, que ano passado subiram mais de 50%, tem levado pessoas, indústrias e comércio a buscar alternativas diante do cenário de recessão. O país já tem cerca de três mil residências e pequenos comércios gerando sua própria energia, seja por placas fotovoltaicas ou por miniturbinas eólicas. A Aneel prevê que até 2024 perto de 1,2 milhão de unidades consumidoras produzam a própria energia em um total de 4,5 gigawatts de potência instalada. Na Alemanha, essa geração alcança 17,5 gigawatts.

A matriz se tornará mais diversificada. "A geração distribuída, as renováveis, a eficiência energética vão ganhar espaço, assim como o mercado livre pode crescer, e é preciso que a regulação acompanhe as mudanças e que elas preservem o setor", observa Karin Luchesi, vice-presidente de operações de mercado da CPFL Energia. As hidrelétricas perderão participação, com aumento da presença térmica e de fontes intermitentes, como solar e eólica. "A matriz se torna mais sofisticada, o que exige uma discussão maior sobre as externalidades de cada uma das fontes, por exemplo o custo de transmissão, a distância do centro de consumo e o fator de capacidade", aponta Severi, presidente da Abragel.

O potencial de avanço das renováveis ainda é elevado. Nas pequenas centrais hidrelétricas, há 5,2 GW instalados e 600 MW em construção, sendo que 3 GW de projetos estão já aprovados e prontos para ir a leilão. Mais de 7 GW estão em estudo. Nas eólicas, no início da década passada, foi feito um estudo que apontou que o Brasil poderia chegar a uma potência instalada de 143 GW no segmento, dez vezes mais do que a capacidade da usina de Itaipu, uma das maiores do mundo. Mas a medição tinha sido feita com aerogeradores com altura inferior a 50 metros. Hoje usam-se equipamentos com mais de 100 metros. Quanto maior a altura, maior a velocidade dos ventos.

Em setembro passado, em Tacaratu, sertão de Pernambuco, começou a ser gerada energia elétrica a partir de um projeto pioneiro no Brasil: um parque híbrido que combina turbinas eólicas com placas fotovoltaicas. A energia produzida será comprada pelo governo do Estado, que estuda quais prédios públicos serão abastecidos pela iniciativa. É uma outra inovação no país e uma forma encontrada pelo governo para estimular a energia solar e sua cadeia de fornecedores.

O parque híbrido, que conjuga a geração de energia solar e eólica, é formado por duas usinas fotovoltaicas com potência instalada de 11 MW, o maior parque fotovoltaico em operação no país, e um parque eólico de 80 MW de capacidade. Juntas, as usinas são capazes de gerar energia suficiente para abastecer 250 mil residências. A energia gerada pelo parque fotovoltaico evitará a emissão de mais de cinco mil toneladas de CO2 anuais.
 
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