10/11/2014

Microusinas solares residenciais ganham força em meio à crise do setor

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Como um pingo da chuva que chega sem vontade às áreas mais castigadas pela seca deste ano em Minas Gerais, os primeiros 62 consumidores de energia elétrica mo- vida à luz do sol no estado testam uma fonte alternativa que tem potencial para fazer frente à de- pendência do Brasil da hidreletricidade. Mas o modelo apenas en- gatinha. Cerca de 6,5 milhões de consumidores residenciais são atendidos pela Companhia Ener- gética de Minas Gerais (Cemig), com a predominância da geração condicionada aos grandes reser- vatórios de água. Impulsionadas pela crise do setor elétrico, as microusinas solares ganham atenção e a demanda desses pro- jetos surpreende, embora ainda concentrada nas famílias de maior poder aquisitivo e na po- pulação que valoriza insumos limpos e renováveis.Segundo estimativa da Associa- ção Brasileira de Energia Solar Fo- tovoltaica (Absolar), 90% dos cerca de 250 sistemas de micro e minige- ração conectados à redes das com- panhias distribuidoras no país usam os paineis fotovoltaicos, grandes placas que contêm células de silício capazes de converter a luz solar em energia elétrica. Se pare- ce pouco, o diretor-executivo da instituição, Rodrigo Sauaia, man- tém o entusiasmo ao falar desse mercado, que começou a surgir há pouco menos de dois anos, com tecnologia considerada ro- busta e equipamentos que ofere- cem 25 anos de garantia.

“É um tema que necessita de educação e divulgação. Alemanha, Estados Unidos, Japão e China têm investido muito mais nessa fonte alternativa de energia”, afirma. A crise do setor elétrico, a alta dos preços provocada pela estiagem prolongada e o acionamento das termelétricas aliviaram o peso dos desafios que as usinas solares resi- denciais enfrentam, mas não a ne- cessidade apontada por analistas da área de energia de que sejam criados incentivos ao investimen- to na geração solar. À tributação que persiste sobre o consumidor que opta pelo sistema, juntam-se a proibição da venda do insumo, os equipamentos caros e a falta de li- nhas de financiamento para os projetos, pequenos ou aqueles em escala industrial.

Com a experiência profissional de atuação no setor elétrico e, ago- ra, de ter se tornado um dos novos usuários da energia produzida em microusina solar, Walter Fróes, di- retor-geral da CMU Comercializa- dora de Energia, com sede em Belo Horizonte, decidiu testar esse mer- cado. “Futuro a energia solar tem, mas ainda é cara, embora o preço da energia na rede convencional esteja em crescimento com o acionamento das termelétricas”, afirma. Na casa onde mora no Bairro Mangabeiras, na Zona Sul da capital mineira, ele investiu R$ 80 mil num sistema estruturado em 36 painéis fotovoltaicos de 250 watts (W) cada um, com capa- cidade para gerar 8 mil quilowat- ts (kW) no sol a pino.

Convertida na eletricidade que alimenta a residência, da área ex- terna de lazer aos quartos e à cozi- nha, a energia produzida será sufi- ciente para promover descontos nas contas de luz da casa e do escri- tório de Walter Fróes. Ele espera co- meçar a usufruir do benefício da redução da conta, que hoje passa de R$ 800 mensais, dentro de no máximo dois meses. Um medidor bidirecional , que compõe o siste- ma das usinas geradoras, faz o ba- lanço entre a energia gerada du-

Entraves da legislação

A Cemig estima em 60 dias, na média dos projetos analisados, o prazo para as microusinas de ge- ração solar estarem ligadas à rede da distribuidora, proporcionan- do, então, a redução na conta de energia do empreendedor do sis- tema. A legislação brasileira, con- tudo, difere do regime adotado na Alemanha e nos Estados Uni- dos, que estimulam essas peque- nas geradoras, permitindo que o consumidor venda a energia ex- cedente e a preços competitivos. Com base na Resolução 482, de 2012, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que criou um esquema de compen- sação tarifária, o cliente paga a diferença entre o que consumiu do fornecimento da concessio- nária e a quantidade que seu sis- tema produziu, podendo limitar o pagamento mensal às taxas de iluminação pública e o devido pelos serviços de medição feitos pela companhia.

Os créditos referentes à ener- gia adicional àquela consumida, que o consumidor permitiu in- gressar na rede da distribuidora, têm de ser usados como descon- to na conta de luz em 36 meses. Do contrário, ele perde o direito ao benefício. A regra exige, por- tanto, que o sistema seja muito bem dimensionado a favor do usuário. As miniusinas solares chegaram com atraso no Brasil, mas têm grande futuro, na ava- liação do superintendente de tec- nologias e alternativas energéti- cas da Cemig, Alexandre Bueno.

“Os painéis de aquecimento de água chegaram devagar e hoje os conjuntos habitacionais já nascem com esses projetos defi- nidos. Com a energia solar vai ocorrer o mesmo”, afirma. Bueno estima que são necessárias 12 cé- lulas fotovoltaicas de silício para atender quatro pessoas de uma família de classe média, com con- sumo de 300 quilowatts-hora (kWh) por mês. O custo de im- plantação soma cerca de R$ 20 mil com o sistema, em geral pro- jetado para durar de 20 a 25 anos.

Para o gerente de regulação da empresa de consultoria Safira Energia, Fábio Cuberos, o poten- cial da geração de energia solar fi- cará subutilizado no Brasil com as limitações do benefício para quem investe no sistema. “Per- mitir a venda da energia estimu- laria as pessoas a colocar potên- cias maiores em casa. Precisamos aprimorar a legislação nesse sen- tido, o que aumentaria muito a procura e provocaria a baixa de preços do sistema”, afirma.

O engenheiro Euler de Carva- lho Cruz, um dos pioneiros das microusinas solares em BH, não só concorda com a necessidade de mudanças na legislação, co- mo gostaria de investir mais nesses sistemas. Depois de in- vestir R$ 20 mil num sistema que produz 420 kWh na casa em que vive com a família, no Bairro Taquaril, na Zona Leste de BH, ele acumula em créditos 2.000 kWh. Rodrigo Sauaia, dire- tor-executivo da Absolar, diz que os custos de implantação das pequenas usinas solares caíram cerca de 80% na última década e tendem a baratear 5% a 10% ao ano. (MV)

rante o dia, que, além de suprir a demanda da família de Fróes, entra na rede da companhia de energia, e o caminho inverso, ou seja, o insu- mo que sai da rede distribuidora e os atende à noite, principalmente.

O gasto com os equipamentos somente se pagará, no entanto, dentro de 12 a 14 anos. Fróes lem- bra que na conta dos benefícios da microgeração solar há de se consi- derar, ainda, o conforto de o consu- midor poder fugir das perdas de energia ocorridas no sistema con- vencional de transmissão e distri- buição no Brasil, calculadas em 13%. Na disputa com a hidreletrici- dade e outras fontes mais difundi- das de geração de energia, a grande questão que se coloca para as reno- váveis é como estocá-las. “Se pu- déssemos captar e armazenar toda a energia que emana do sol para a Terra ao longo de um único dia, sustentaríamos o planeta com energia suficiente por um ano e meio”, compara Fróes.

IMPULSO NOVO Há cinco anos no ramo de projetos de geração de energia renovável, o engenheiro e técnico em eletrotécnica Frederico Milward Leitão Garcia vê impulso renovado à startup que criou em BH, a Foto Energy, responsável pe- lo desenvolvimento de sistemas em Minas, no interior de São Paulo e na Paraíba. Os orçamentos dos clientes variam de R$ 5 mil a R$ 500 mil, de acordo com as dimensões dos equipamentos, configurando usinasde140Wa18kW.

Na comparação com o ano pas- sado, a demanda de projetos tripli- cou, de acordo com Frederico Gar- cia. “Desde julho, os pedidos não param de chegar, com a falta de chuvas, risco de racionamento de energia e a conta que vai ficar 30% mais cara”, afirma. Os interessados, em sua maioria, são famílias de maior poder aquisitivo e engajadas na causa da preservação do meio ambiente em casas ou condomí- nios fechados na Grande BH.

GRANDES PROJETOS

A partir de 2017, 31 grandes projetos de geração de energia solar com capacidade instalada para 1.048 megawatts vão participar da rede nacional. Os empreendimentos resultam do leilão púbico realizado em 31 de outubro, em que o governo fez contratos de compra pelo preço médio de R$ 215,12 o megawatt-hora. A Renova Energia, dedicada à geração de energia renovável, foi um dos grandes vencedores e lançará um complexo híbrido de energia solar e eólica. O diretor financeiro e de relações com investidores da empresa, Pedro Pileggi, afirma que o mercado da geração solar não deslanchou em razão de preços ainda altos. A empresa, que tem a Cemig como acionista, firmou contrato de fornecimento com a fabricante de painéis fotovoltaicos Sunedison, que deverá implantar em 2016 e 2017 a primeira unidade fabril brasileira do produto. “Já faz sentido o investimento na geração solar no Brasil”, afirma Pileggi.

Frederico Garcia desenvolve sistemas que geram até 18 quilowatts.
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