29/01/2016

Solar criará ao menos 60 mil empregos no Brasil

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CanalEnergia
 
O Brasil fechou 2015 com uma taxa média de desocupação de 6,8%, o que corresponde a 1,7 milhão de pessoas desempregadas, segundo dados divulgados nesta semana pelo IBGE. A boa notícia é que o Governo Federal poderá contar com o setor fotovoltaico para ajudar a minimizar esse quadro nos próximos anos. De acordo com Rodrigo Lopes Sauaia, presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), a instalação de projetos de energia solar resultará em um “volume expressivo” de novas oportunidades de trabalho.
 
Até o momento, 3,3 GW em usinas solares estão previstas para serem instaladas no Brasil até 2018 considerando os projetos contratados via leilões de energia de reserva e os projetos que foram viabilizados no mercado livre pelo estado de Pernambuco. Estima-se que para cada megawatt solar instalado sejam criados entre 20 e 30 postos de trabalho (diretos e indiretos), segundo especialistas consultados pela Agência CanalEnergia. Sendo assim, calcula-se que algo entre 60 mil e 99 mil novas oportunidades de trabalho deverão ser criadas com o desenvolvimento do mercado de energia solar brasileiro. Para fins de comparação, o setor eólico emprega 15 pessoas para cada megawatt instalado no país.
 
Pode ser ainda maior o número de vagas geradas pelo segmento de energia solar, uma vez que a conta desconsidera o potencial de empregos a serem criados com o avanço da geração distribuída (GD). De acordo com dados da Agência Nacional de Energia Elétrica, o mercado de GD fechou 2015 com 1.731 instalações ou 16,5 MW de capacidade. Em comparação com 2014, quando existiam 424 conexões, houve um aumento de 308%.
 
"O resultado disso é que está surgindo um número maior de pequenas empresas e essas empresas precisam de equipes capacitadas para realizarem tanto o projeto quanto a instalação desses sistemas. Por isso será fundamental que o setor, a academia, o governo e as entidades que já atuam há muitos anos na formação de profissionais trabalhem para preparar adequadamente essas bases para o crescimento da geração distribuída, para que a gente tenha profissionais atuando com qualidade e competência na instalação e nos projetos dos sistemas”, afirma Sauaia.  A ABSOLAR acredita que o crescimento do mercado de geração distribuída neste ano superará os números de 2015.
 

Formação profissional será prioridade em 2016
Rodrigo Sauaia, ABSOLAR

 
Segundo Sauaia, o tema da formação dos profissionais para o setor fotovoltaico será uma das prioridades da associação em 2016. Como a formação de profissionais demora um certo tempo, ela precisa ser planejada desde agora para que ela possa ser executada a tempo de acompanhar o crescimento do mercado, evitando possíveis gargalos na parte de profissionais.
 
A associação criou um grupo de trabalho específico para tratar da questão da mão de obra. No momento, a entidade está avaliando as experiências internacionais, entendendo quais foram os mecanismos e os programas utilizados em outros países para preparar os profissionais. “Além disso, estamos avaliando os mecanismos de certificação que foram aplicados em outros países, buscando compreender quais dessas iniciativas foram bem-sucedidas e quais delas podem ser utilizadas como referência para que o Brasil planeje o seu próprio caminho", conta Sauaia.
 
Segundo dados da Aneel, a energia fotovoltaica representa hoje 0,02% da matriz elétrica brasileira. O Plano Decenal de Energia estima que a fonte chegará a 3,3% da matriz ou 7 GW em 2024. Em dezembro o Ministério de Minas e Energia lançou o Programa de Desenvolvimento da Geração Distribuída. O ProGD terá a missão de estimular R$ 100 bilhões em investimentos até 2030, com adesão prevista de 2,7 milhões de unidades consumidoras, entre residências, comércio, indústria e o setor agrícola - atingido uma potência instalada de 23,5 mil MW.
 
Para este ano, a Absolar espera que o governo realize ao menos dois leilões para fonte solar: um com o objetivo de complementar a contratação de 2018 e outro mirando 2019. Sauaia explica que é preciso manter uma contratação mínima de 2 GW solares por ano. “Isso é importante para ajudar as empresas nas decisões de vinda para o Brasil.”
 
A participação do governo também será fundamental no processo de formação da mão de obra. Diferente de alguns outros setores de energia elétrica, o mercado fotovoltaico será geograficamente distribuído. Como consequência disso, será necessário um envolvimento do Governo Federal para que se tenha condições de montar um programa de capacitação profissional que não fique restrito geograficamente, mas que possa ser aplicado em todos os Estados do país de uma forma abrangente.
 

Mão de obra fotovoltaica é escassa no Brasil 
Roberto Zilles, IEE-USP

 
Historicamente, a utilização da energia solar no Brasil vem desde a década de 1980. Porém, nas primeiras três décadas as instalações por aqui se restringiram a sistemas de pequeno porte em áreas remotas, feitas por eletricistas.  Para Roberto Zilles, doutor em Engenharia de Telecomunicações em Sistemas Fotovoltaicos e professor associado do Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP), ainda é escasso o número de profissionais formados nas particularidades dos sistemas fotovoltaicos no país. Ele relata que durante a instalação de 0,5 MW na USP foi preciso treinar os profissionais das empresas vencedoras da licitação. “Essas empresas tinham experiência em instalações elétricas, mas não tinham conhecimento das particularidades dos sistemas fotovoltaicos.”

“A gente tem profissionais na área elétrica, técnicos de nível médio, engenheiros eletricistas, mas no currículo dessas carreiras são escassas as experiências que se dedicam as particularidades das instalações fotovoltaicas. Nós temos profissionais na área elétrica, mas os conteúdos do fotovoltaico não são tratados nos currículos em muitas dessas carreiras”, diz Zilles, que também é presidente da Associação Brasileira de Energia Solar (Abens).
 
Para o especialista, o primeiro passo é introduzir conteúdo específico sobre os sistemas fotovoltaicos nos cursos técnicos e de graduação no Brasil. “A experiência mostra que não é complicado transferir esses conhecimentos para uma empresa que hoje já se dedica a engenharia e instalações elétricas. No Brasil existe mão de obra qualificada em instalações elétricas, o que falta é essa mão de obra se aproximar e ter contato com as particularidades da fotovoltaica”, afirma Zilles. “Certamente a geração distribuída terá um papel importante e vai impulsionar essa formação de profissionais, que vão abrir sua própria empresa de engenharia e de instalações.”
 

Setor abre oportunidades para novos negócios
Luis Colaferro, da Blue Sol

 
Além da busca por qualificação para o preenchimento de funções, há também aqueles profissionais que buscam na energia solar um novo projeto de vida. De acordo com Luis Otávio Colaferro, diretor de Treinamentos da Blue Sol – Energia Solar, há muitas pessoas de áreas afins que veem no mercado fotovoltaico uma oportunidade de empreendedorismo.  A empresa, que instala sistemas solares e ministra cursos para o setor, já formou 4.800 profissionais em quatro anos. Dois terços desse público são de pessoas com formação técnica em elétrica, eletrônica ou engenharia. Porém, uma outra parte é formada por arquitetos, corretores de imóveis, empresários e até profissionais que fizeram carreira no setor elétrico, mas que agora enxergam na energia solar uma oportunidade de abrir a própria empresa. “O nosso trabalho na Blue Sol é no fomento ao empreendedorismo solar, que vai muito além da formação e preparação técnica”, declara Colaferro.
 
Segundo o executivo, com base em dados de novembro de 2015, cerca de 60 empresas por mês iniciaram suas atividades no setor de energia solar no Brasil. Para ele, o que o país precisa é levar a energia solar para o conhecimento da população. “E nesse quesito, se todos nos trabalhássemos em conjunto, o mercado como um todo iria crescer e o nível de oportunidade iria aumentar.” 
 
O Sebrae Nacional informa que ainda não há aferição sobre a procura por cursos de capacitação no mercado de energia solar, porém o órgão diz que tem “observado uma procura” por empresários que trabalham com o negócio de energia solar - representantes de painéis, instaladores e manutenção. O Sebrae informa também que está se aproximando da indústria de energia solar com vistas a formalizar uma parceria para capacitar pequenas empresas a investirem em energias alternativas.
 
Faltam cursos de pós-graduação stricto sensu
Hermes Loschi, da Unicamp

 
Perfil profissional
Para o professor e pesquisador do Laboratório de Comunicações Visuais da Unicamp, Hermes José Loschi - autor do livro “Compreendendo um Sistema Fotovoltaico: uma abordagem didática conceitual” (Editora Braúna) -, o perfil dos profissionais do setor solar pode ser divido em duas categorias: o instalador fotovoltaico, que hoje está capacitado para instalar sistemas, mas que também precisará adquirir conhecimentos em proteção elétrica; e os engenheiros de projetos, responsáveis por dimensionar os sistemas, mas cuja formação terá que ser complementada com conteúdos da área de telecomunicações em função da introdução das redes inteligentes.
 
Para ele, a qualidade da mão de obra será determinante para o desempenho dos futuros empreendimentos no país. Loschi conta que no Brasil há uma grande oferta de programas de especialização em energia fotovoltaica, mas faltam cursos de pós-graduações stricto sensu, como programas de mestrado e doutorado na área de energias renováveis.
 
“Hoje há muitos cursos técnicos e práticos sendo realizados por entidades privadas. Mas quando um profissional pretende atuar num nível mais conceitual, como a criação de uma usina, que envolve parâmetros que vão além da instrução técnica... aí a gente tem uma lacuna muito grande no país. O nosso papel é tentar representar cursos de extensão visando também a criação de bacharelado na área de engenharia de energias, cujo intuído é capacitar esse profissional não só para uma fonte, mas para um futuro onde provavelmente existirão sistemas híbridos de energia.”
 
Loschi lembra que as oportunidades proporcionadas pelo mercado solar não se limitarão ao profissional “elétrico”. Também haverá uma maior demanda por profissionais da área ambiental, civil, mecânica e até mesmo de comércio exterior, uma vez que haverá necessidade de importar componentes. Haverá também oportunidades para criação de empresas de distribuição, logística e estoque de equipamentos solares.
 
 
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